Capítulo 2 - O prémio do mar
Após aterrar no heliporto próximo da marina, Dirceu entrou na limusina protegido por dois agentes de segurança privada. Embora o perigo fosse mínimo, o protocolo era estrito. Faltava meia dúzia de quilómetros até ao veleiro. Não lhe constava que tivesse inimigos. A presença daqueles homens robustos era, acima de tudo, uma questão de estatuto inerente à sua condição de milionário.
A viatura para onde subiu tinha vidros fumados, à prova de bala, exigência da empresa de segurança que contratara. Ali, supunha-se, nunca podia entrar qualquer projétil. Dirceu não era um homem mediático, nem nunca tal desígnio fizera parte das suas ambições pessoais. Procurava viver discretamente. Revistas desportivas falavam, uma vez por outra, no financeiro solitário que insistia em cruzar os oceanos por mero capricho pessoal, sem entrar em competição, apesar da perícia que todos lhe reconheciam.
Dirceu sabia que o esperavam perigos, mas relativos e controlados. Mesmo que enfrentasse uma tormenta profunda, a sofisticação e a envergadura do barco, aliadas à cobertura de satélite, garantiam a prontidão do resgate Caso se verificasse uma necessidade iminente, o socorro estava de tal modo planificado que, mesmo em risco de naufrágio, seria rapidamente socorrido, estivesse onde quer que fosse, desde que se sentisse em condições de o acionar.
Longe iam os tempos da aventura pela aventura, com desafios calculados é certo. Assentou desde o casamento com Marinela, que o mimava o ano inteiro, mas que recusava fazer-se ao largo na sua companhia. Dirceu não se importaria que deixassem de lhe chamar navegador solitário, desde que Marinela o acompanhasse.
Depois de se conhecerem, em tempos pré-nupciais, ela passou a viajar nos iates de Dirceu. Sempre que ele sonhava ir mais além das ondas costeiras, arrepiava-se e sustentava, cada vez mais, a firme intenção de não querer embarcar em viagens transoceânicas. Na cabotagem costeira, aí sim, até havia mel no convés. Lá fora, só preocupações, estava convicta.
O oceano era para ele uma estrada, desde que as leis da física descritas, em especial no princípio de Arquimedes, fossem respeitadas e a perícia equivalesse à dos bons condutores do asfalto. O mar só pede destreza, atenção e respeito a quem acolhe.
A limusina aproximava-se da marina de recreio. Vieram-lhe à memória os amigos, proprietários de iates, dos tempos de corretor bancário. Nos passeios de fim de semana, acompanhados por belas garotas de programa, navegavam para recantos paradisíacos e praias solitárias, usufruindo dos corpos à disposição sem restrições. Vieram-lhe à lembrança os amigos, proprietários de iates, que conheceu quando exercia a profissão de corretor bancário, para a qual sempre demonstrou elevadas capacidades em obter ganhos. Com eles aprendeu a gostar muito do mar e da navegação desportiva. Em passeios de fim de semana, acompanhados por belas garotas de programa, navegavam para recantos e praias solitárias, lugares paradisíacos das costas do Brasil, oferecendo e usufruindo dos corpos à disposição. Ao nadar, jogar e a beber, tinham apenas por testemunhas as aves dos céus, que os aviões voam alto demais.
O sol da manhã, difuso atrás dos vidros fumados, iluminou-lhe o rosto sorridente. Aconchegou-se um pouco mais no luxuoso banco da viatura. Recordou o facto de, nas últimas viagens que fizera com os amigos, ter passado o tempo sentado do lado do mar alto, alheio ao que se passava nas suas costas, no convés do barco. Imaginava que seria se o cruzasse com Marinela a seu lado, em busca de novas sensações, uma ambição por ela sempre frustrada.
— Eu gosto muito do mar, mas visto da praia! — dizia ela a sorrir, de maneira elegante e divertida, os dentinhos perfeitos a espreitar atrás dos lábios, logo no dia do primeiro convite.
Com Marinela, porém, chegara a uma relação diferente: calma, suave, quase tântrica. Ela tivera a magia de lhe retirar aquele efeito de "pilha de nervos" causado pelo trabalho frenético na bolsa. No apartamento onde se encontravam, ela desfazia-o por completo. No início de cada um desses dias, era devolvido ao escritório com redobrada energia e sagacidade. Era a sua feiticeira.
Dirceu nunca desistiu do mar. A cada ano que passava e com os conhecimentos adquiridos, em estudo aturado e aplicado, aprendeu a viajar só, durante as férias que se impunha no seu trabalho por conta própria. Primeiro em sortidas, mar adentro, durante viagens de cabotagem, depois quando, num impulso bem-sucedido, se aventurou em vagas fortes e foi de São Paulo às costas do sul da Namíbia.
Nessa sua viagem, vigiou-se, aferiu capacidades, controlou o receio das altas vagas e ventos fortes, apreciou as calmarias, divertiu-se com a curiosidade dos cetáceos e tunídeos, apreciou a companhia dos golfinhos, venceu medos e barreiras. Foi à sorte e saiu-se bem.
Sempre que regressava aos braços de Marinela, no quente apartamento de São Paulo, era já outra pessoa. De tal forma que perdeu a intranquilidade primitiva, exigida pela pressão do dia-a-dia, sempre rodeado por quadros eletrónicos, telefones, telas, subordinados a comprar e vender em voz alta, tal como ele próprio.
A calma de Marinela e o regresso à "fala silenciosa" das águas permitiram-lhe observar outro tipo de transações: investimentos de longo prazo, mais seguros e duradouros. Conversou com ela, reuniram poupanças de uma carteira de ações sólida e mudou-se para o setor imobiliário em expansão. Foi aí que começou a sua verdadeira fortuna pessoal.
A única sombra entre ambos era a ausência anual de Dirceu. Não o acompanhava por recear expor-se a perigos desconhecidos. Dirceu amargava o desgosto e começava a aceitar a recusa de Marinela em sair para o mar alto.
Na terceira viagem oceânica, o mar deu um prémio de dedicação a Dirceu Lacerda de Meireles.